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Resenha | Sejamos Todos Feministas

Logo de cara a autora Chimamanda Ngozi Adichie quebra alguns pré-conceitos formados em relação a palavra “feminista”, onde, como a própria ideia de feminismo, é limitada por estereótipos, dentre eles alguns como: “feministas odeiam os homens”; “feministas acham que as mulheres devem ‘mandar’ nos homens”; “feminista é contra usar maquiagem”; “feminista é contra depilação”; “feministas estão sempre zangados e não tem senso de humor”; “feministas não usam desodorante”…

A autora constrói seu pensamento ao decorrer do livro a partir da perspectiva de que “se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal”, isso inclui também as ideias erradas sobre alguns conceitos, quando não aprofundados, algo muito presente quando é discutido o feminismo, onde é comum os estereótipos citados acima serem mencionados antes de um real aprofundamento da questão.

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“Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal.”. A partir deste excerto a autora propõem a reflexão sobre alguns pontos presentes em nossa sociedade, como por exemplo: “se só o homens ocupam cargos de chefia na sociedade, começamos a achar ‘normal’”. A autora cita Wangari Maathai, ganhadora do premio Nobel da paz que afirmou: “quanto mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos”.

Os homens governam o mundo! Isso fazia sentido mil anos atrás que os seres humanos viviam em um mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência, e os indivíduos homens biologicamente são mais fortes. Hoje, porém, vivemos em um mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada não é a mais forte, é que busca mais instrução, mais estudos, mais cultura, mais criatividade, a mais inovadora… e não existem hormônios para esses atributos, tantos homens quanto mulheres podem ser.

A autoria continua o seu texto, que alia criticas à relatos reais e estudos de casos, comentando que para algumas pessoas alguns fatos, como os homens nos cargos mais importantes, são “apenas detalhes”. Com isto a autora permite uma reflexão acima da questão destes movimentos aparentemente simples, inocentes e internalizados que acabam sendo os que permitem a continuidade dos problemas de gênero e são esses “detalhes” os que mais incomodam, e que devem ser não apenas refletidos, mas também problematizados.

A questão de gênero, como está estabelecida hoje em dia, é uma grande injustiça. Mulheres são ensinadas a serem “queridas”, são criadas para acreditar que ser “bem quista” é muito importante, e isso não inclui demonstrar raiva ou agressividade, tampouco discordar das coisas como estão apresentadas.

Perdemos muito tempo ensinando as meninas do mundo a se preocupar com o que os meninos pensam delas, mas o oposto acaba não acontecendo, e isso, como aponta a autora, é algo cultural. Em todos os lugares do mundo existem milhares de artigos e livros ensinando o que as mulheres devem fazer, como devem ou não devem ser para atrair e agradar os homens. Livros sobre como os homens devem agir com a mulheres são poucos. A ameaça da possibilidade de não casar é levantada na nossa sociedade contra uma mulher com uma frequência muito maior do que contra os homens.

A autora reintegra durante todo o seu texto o quanto a questão de gênero é importante; assim como é importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente, um mundo mais justo, um mundo de homens & mulheres, igualmente!

Para tal a autora nos permite revermos nosso dia a dia para buscar criar nossas crianças de modo diferente, tratar com nossos alunos em sala de aula as questões de gênero, sem tabus, as claras. O modo como estamos criando nossos homens é muito nocivo: a definição de masculinidade, a autora aponta, é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos: não pode ter medo, não pode ser fraco ou se mostrar vulnerável, precisam esconder quem realmente são — “homens de verdade”.

Isso pode ser observado nos movimentos mais simples, que carregam os maiores perigos da desigualdade de gênero, por exemplo, ensina-se e espera-se que ele pague a conta para mostrar sua masculinidade, como se fosse exclusivo do homem ter que pagar a conta. Isso gera muito mais problemas ao longo do tempo, e como bem relembra a autora, alguns deles presentes em nossa sociedade, como os homens com salários mais altos, o que já é comprovado acontecer. E se o meninos e as meninas fossem criados de modo a NÃO vincular a masculinidade ao dinheiro? Se começarmos a criar nossas crianças de outra forma daqui a 50… 100 anos eles talvez não sintam-se pressionados a provar sua masculinidade por meio dos bens materiais.

A autora levanta que quando os pressionamos a agir como durões, nós os deixamos com o ego muito frágil. Quanto mais duro um homem acha que deve ser, mais fraco será seu ego. E as meninas são criadas diferentes, ensinadas a cuidar do ego frágil do sexo masculino, a “não ameaçar” o homem, com afirmações como: “tenha sucesso, mas não muito…” “não queria ganhar mais…” “cuide da casa…”

Não é falado no texto que as mulheres não devem buscar pelo casamento, pelo contrário, a autora coloca que o casamento pode ser bom, uma fonte de felicidade, amor e apoio mutuo. Mas ela problematiza: porque ensinamos as mulheres a aspirarem ao casamento, mas não fazemos o mesmo com o mesmo afinco com os meninos? Não os mandamos ser “educados”, “recatados” ou “respeitosos” com o mesmo empenho que os fazemos, culturalmente, às meninas.

Em nossa sociedade, a mulher de certa idade que ainda não se casou é vista como “encalhada”, “infeliz”, enquanto o homem “ainda está curtindo”, “não escolheu”. É ensinado que nos relacionamentos a mulher quem deve abrir mão das coisas, “respeitar o marido”. Policiamos as meninas a todo tempo, o modo “moça” de agir, o “recatado”, elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos. E quando uma menina não responde a esses “padrões” é considerada, no mínimo “puta”, “vulgar” o que leva a concepções sociais ainda mais graves, como quando nos deparamos com ideias como: “sim, estuprar é errado mas o que ELA estava fazendo…?”. Como se as mulheres fossem inerentemente culpadas e a ideia do homem como uma criatura selvagem, que precisa seguir seus instintos, sem autocontrole, passa a ser aceitável. Será possível que este pensamento possa continuar ainda?

Ensinamos as meninas a sentir vergonha: “feche as pernas”, “olhe o decote”. Nós, socialmente, as fazemos sentirem-se envergonhadas e frágeis da condição feminina. Todas as mulheres já nascem culpadas por serem mulheres e devem se dar ao respeito, por que do contrário vão ser estupradas e a culpa vai ser delas. A autora neste ponto do texto mostra que os movimentos inocentes, que se iniciam na infância das crianças e na não problematização das desigualdades de gênero, levam a consequências violentas e seríssimas que ainda existem em nossa sociedade.

O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Meninos e meninas são inegavelmente diferentes em termos biológicos, mas a socialização exagera essas diferenças. E se criássemos nossas crianças focando seus talentos, e não seu gênero? Em seus interesses, sem considerar gênero?

Quando se trata de aparência, nosso paradigma é masculino — quanto menos feminina for a aparência de uma mulher, mais chances ela terá de ser ouvida. Quando um homem vai a uma reunião de negócios não precisa se preocupar em usar algo que o faça ser ouvido, mas a mulher pondera.

No estágio final do texto, a autora aponta que não é fácil conversar sobre gênero, muitos ficam desconfortáveis e até irritados, tanto homens como mulheres não gostam da temática e tentam contornar o assunto, porque a ideia de mudar o “status quo” é sempre penosa.

Porque usar a palavra “feminista”.

A cultura não faz as pessoas.

As pessoas fazem a cultura.

Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.

Feminista é o homem e a mulher que dizem: sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que o resolver. Temos que melhorar. Todos nós, indivíduos, mulheres e homens, temos que melhorar.

Referência:

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. Editora Companhia das Letras, 2014.

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